Mestre da pintura surrealista nascido em Figueras, Espanha, consagrado através de sua obra 'A Persistência da Memória' (24 x 33 cm), de 193l, onde reproduziu com surpreendente perfeição imagens de relógios flácidos se derretendo, além das telas 'O Sangue é Mais Doce do que o Mel' e 'O Cristo de São João da Cruz'. Expôs pela primeira vez em Madri, em 1929 e, em 1937, abordou o surrealismo para se dedicar à pintura de objetos sagrados e temas da renascença italiana. Dali chegou a permanecer por um tempo em Paris, onde fez com seu compatriota Luís Buñuel dois filmes de vanguarda, 'O Cão Andaluz' (Le Chien Andalou, 1929) e 'A Idade do Ouro' (L'Age D'Or, 1931), tendo, com este último, provocado tumultos na platéia. O artista estudou na Academia de Belas Artes de Madri ainda jovem e realizou sua primeira exposição individual em Barcelona. Sofreu a influência dos grandes movimentos da pintura, passando pelo impressionismo e o cubismo científico antes de chegar ao surrealismo.
Em 1936, participou da Exposição Surrealista Internacional, em Londres, vestindo um escafandro e conduzindo cães de caça russos em coleiras. Fugindo da ocupação nazista em 1940, na França, mudou-se para a Califórnia, EUA, onde ficou até 1948. Pintou murais, ilustrou livros, decorou jóias e lançou uma publicação, 'A Vida Secreta de Salvador Dali'. Com seus bigodes, que ele gostava de chamar de antenas psicodélicas, chegou a pintar cerca de 2.000 quadros a óleo, além de gravuras e esculturas. Suas declarações insólitas e comportamento excêntrico eram motivo de grande polêmica. Disse, certa vez: "Todas as manhãs, ao acordar, eu sinto um prazer supremo: o de ser Salvador Dali". Alvo das mais contraditórias críticas que o apontavam com gênio e louco, foi uma das figuras mais combatidas de sua época.
Ele chegou, inclusive, a vender apenas sua assinatura, em pequenos pedaços de papel, por 50 dólares. Calcula-se que circulem pelo mundo 350.000 folhas em branco assinadas pelo artista. Em 1982, recebeu o título nobiliárquico de Marquês Dali de Pubol. Sua esposa, musa e administradora, a russa Elena Diakonoff, rebatizada de Gala, dez anos mais velha que ele e que Dali roubou de seu amigo, o poeta francês Paul Eluard na década de 20, morreu em 1982. O artista passou a viver em reclusão em seu castelo, perto do teatro-museu em Figueras, na Catalunha. Dois anos depois, o prédio pegou fogo e ele sofreu várias queimaduras, mas resistiu bem ao tratamento e recuperou-se. Com as doenças da velhice surgindo nos anos seguintes, sua saúde tornou-se muito precária e, preso a uma cadeira de rodas, limitava-se a ler jornais ao longo do dia. De lá, não saiu nem para a inauguração de uma praça em Madri, por ele desenhada, de 2.000 metros quadrados, dominada por um monumento de treze metros. Ao ter um marca-passo implantado em seu peito, em 1986, Dali declarou: "Sou um gênio, não tenho o direito de morrer, e não chegarei a morrer. Quero viver pelo rei, nosso rei, pela Espanha e pela Catalunha".
O escritor britânico Clifford Thurlow lançou na Espanha o livro "Sexo, Surrealismo, Dalí e Eu". Thurlow descreve pela primeira vez os capítulos mais íntimos da vida privada de Dalí, a partir do testemunho do pintor e bailarino colombiano Carlos Lozano, que conheceu o pintor em Paris, em 1969, e foi amigo íntimo do artista até a morte. Segundo Lozano, que morreu em 2000 depois de fazer a revisão do original em inglês, "Dalí era totalmente homossexual, e sempre ocultou isso. Ele viveu durante toda sua vida uma espécie de tormento que o levou a pensar além da conta no sexo", explicou o autor do livro, baseado em centenas de horas de conversas entre ele e Lozano. Em seus relatos, Lozano revive as festas oferecidas por Dalí, o "luxo desenfrenado" em que se desenvolvia e sua capacidade de converter tudo em ouro. "O que Dalí mais gostava de fazer era observar o ato sexual praticado por um casal jovem que chegou à sua casa de Portlligat, na Espanha e se excitava ainda mais se os dois amantes não se conheciam anteriormente", afirma Thurlow. O "tormento" de Dalí por sua "oculta homossexualidade" se reflete em sua vida e em sua obra "impregnadas de sexo". "Ao não praticar sexo, Dalí converteu-se em um 'voyeur' e, nesse círculo, Gala, sua mulher, tinha o papel da mãe porque Dalí queria uma mãe". "Paralelo a isso, buscaram rapazes jovens, de 20 anos; ele por seu desejo homossexual, e ela por sua voracidade ninfomaníaca", acrescentou o autor. Dali morreu aos 84 anos, em 24 de janeiro de 1989. |