Cantor e compositor baiano, consagrou-se através de uma série de músicas de protesto, que continuam lembradas até hoje em regravações. Suas posições polêmicas e seus discursos musicados resultavam invariavelmente no cantor ser taxado de complicado, individualista e louco. Mas o magérrimo, desleixado e cabeludo Raulzito, com seu bigode, cavanhaque e sempre portando óculos escuros, foi reconhecido, com o passar dos anos, como um criador vanguardista. Com seis anos, sua mãe fez a pergunta clássica: O que é que você vai ser quando crescer, meu filho? Filósofo, foi a resposta. A mãe correu para a máquina e começou a costurar uma túnica branca. E o menino passou a usá-la durante todo o dia. Aos nove anos, morando próximo ao consulado norte-americano em Salvador, aprendeu um pouco de inglês e foi cantar rock num show realizado num cinema do bairro. Essa música é a abertura de um de seus LPs. Empregado da CBS, Raul transitou por quase todas as áreas de trabalho da gravadora, onde foi produtor de Jerry Adriani e de Renato e Seus Blue Caps.
Raul estreou na carreira em 1967, ao gravar um obscuro LP logo que chegou de sua terra natal, na Odeon, onde atuava como crooner do conjunto Os Panteras. Em 1972, foi um dos maiores sucessos no Festival Internacional da Canção, ao pisar no palco do Maracanãzinho para ressuscitar a imagem de Elvis Presley em Let Me Sing. Seu primeiro disco de sucesso aconteceu em 1973 ao gravar Ouro de Tolo, criando um estilo inconfundível. Sua gravadora, a Phonogram, lhe concedia total liberdade criativa, ao ver nele sua mina de ouro. A música Gita, um dos seus maiores sucessos na década de 70, atingiu a tiragem de 200.000 compactos e 150.000 LPs. Os convites para cantar em programas de televisão foram aumentando e ele achou que tinha chegado a hora de fundar uma sociedade que lutasse pelos seus ideais. Nasceu a Krig-ha-Bandolo, que significa o grito de guerra de Tarzan e tornou-se nome de LP.
Era o ano de 1973 ainda quando o movimento amadurecia e transformava-se em Sociedade Alternativa, um movimento artístico-filosófico (Fazes o que quiseres, pois é tudo da lei). Costumava dizer que ele reunia poucos integrantes: logicamente ele próprio, a esposa, Paulo Coelho, São Francisco de Assis, John Lennon, o escritor Gurdjieff e José Celso Martinez Correia. O refrão Quem não tem colírio, usa óculos escuros! tornava-se conhecido de norte a sul do Brasil.
De comportamento rebelde e excêntrico, Raul Seixas transformou-se no artista brasileiro com maior número de fã-clubes no país, cerca de 200, apesar de enfrentar acentuado declínio na década de 80. Considerando-se boicotado pelas gravadoras e meios de comunicação, conseguiu reunir dez mil pessoas em um show realizado em São Caetano do Sul, no final de 1985. No ano seguinte, após meses e meses perdidos em sucessivas internações pelas clínicas de São Paulo, numa corrida louca para recuperar a saúde, Raul Seixas afastava-se de seus fãs. Muitos reclamaram a ausência do ídolo, que não deixavam de prestigiar em frequentes eventos realizados em sua homenagem. Inconformados com a falta de divulgação de seu roqueiro predileto, ouviam-se declarações como essa: Gente como o Raul não pode morrer, é preciso conservar seu cérebro vivo. Um homem que canta essas idéias conseguiria governar melhor esse país. Ou: Eu vou ficar p... da vida quando o Raul bater as botas. E então, só então, a Globo vai aparecer com um especial sobre a sua vida pra faturar em cima. Coincidência ou não, esse especial ocorreu em setembro de 1993.
Raul Seixas gravou 17 discos, contendo composições como Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, A Maçã, Sociedade Alternativa, Para Nóia, Medo da Chuva, Como Vovô Já Dizia, Novo Aeon, O Homem, O Trem das Sete, Tente Outra Vez, Eu Também Vou Reclamar, Mosca na Sopa, É Fim de Mês, Al Capone, Metamorphose Ambulante, Tá na Hora, Quando você Crescer, Gita, Maluco Beleza e Você. Entre suas idéias mais surpreendentes, declarou-se candidato à presidência da República em plena repressão militar; imaginou o dia em que ninguém saiu de casa e a Terra, sem ninguém para comandá-la, parou; coisa de maluco era tomar banho de chapéu e maluco que vai para o hospício não está com nada. Chegou a afirmar também que nada tinha a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira. Seixas faleceu aos 44 anos, em 21 de agosto de 1989. |