Autor de crônicas e peças de teatro natural do Recife, popularizou-se com trabalhos trágico-sensacionalistas, que relatavam o cotidiano de maneira brutalmente realista, tendo contribuído para o surgimento de uma nova dramaturgia brasileira. Desprezado pela Academia Brasileira de Letras, sua obra foi muitas vezes sumariamente proibida pela censura. Álbum de Família ficou 25 anos presa na polícia federal. A intelectualidade de esquerda da década de 70 não o perdoava por ser admirador do regime militar. Chamaram-no tantas vezes de reacionário que ele até deu esse título, O Reacionário, a um de seus livros de crônicas. Sua obra para o teatro se inicia com A Mulher sem Pecado (194l), atinge um fulminante apogeu com Vestido de Noiva (1943) e permanece sólida com Álbum de Família (1945), Anjo Negro (1946), Valsa No 6 (1950), A Falecida (1954), Senhora dos Afogados (1955), Perdoa-me por me Traíres (1957), Viúva porém Honesta (1957), Os Sete Gatinhos (1958), Boca de Ouro (1959), Beijo no Asfalto (1960), Otto Lara Resende ou Bonitinha Mas Ordinária (196l), Toda Nudez Será Castigada (1962) e, depois de um bom intervalo, O Anti-Nelson Rodrigues (1973).
O cinema nacional também descobriu que seu nome poderia garantir o sucesso de bilheteria e multidões acorreram para ver nas telas Toda Nudez Será Castigada (1973) e O Casamento (1975), ambos de Arnaldo Jabor, A Dama do Lotação (1977) e Os Sete Gatinhos (1979), ambos de Neville d'Almeida. Diversos trabalhos também foram adaptados para televisão, entre eles, A Vida Como Ela É, adaptação em 16 mm de suas crônicas diárias publicadas nos jornais cariocas e levadas ao ar dentro do programa Fantástico pela Rede Globo em blocos de oito minutos, em 1996. A vida pessoal de Nelson Rodrigues foi marcada de tantas tragédias quanto a de seus personagens.
Na década de 30, seu irmão, o jornalista Roberto Rodrigues, foi assassinado na redação do jornal de seu pai, Mario Rodrigues, por uma bala que era endereçada a este. Dois meses depois, seu pai morreu de desgosto. Alguns anos se passaram e Nelson ficou tuberculoso junto com o irmão, Joffre, mas só este morreu. Durante anos suas idas e vindas a Campos do Jordão acabaram por dominar a doença.
Em 1966, durante as enchentes que atingiram o Rio, outro irmão, Paulo, morreu com a mulher e filhos no desabamento de um prédio em Laranjeiras. Nelson teve uma filha cega e um filho foi condenado pela justiça militar por atividades terroristas. Tipos e expressões memoráveis, de Nelson Rodrigues: Padre de passeata (religioso que troca a batina pela política), A freira de mini-saia (correspondente feminino do padre de passeata), Palhares, o canalha (oportunista sem nenhum escrúpulo), A grã-fina das narinas de cadáver (figura da alta sociedade), Sobrenatural de Almeida (sofredor das camadas menos privilegiadas), A estudante de psicologia da PUC (mulher culta e politizada), O óbvio ululante (expressão para designar a verdade incontestável), A estudante de calcanhar sujo (jornalista pouco feminina e de mau humor), O idiota da objetividade (mentalidade sufocada pelos dogmas da ciência) e O gordo anônimo de três paradas e três bochechas em cada lado do rosto (marido de grã-fina).
Em 1976, Nelson Rodrigues declararia: Fiz uma operação de aneurisma abdominal. Seria uma operação só, mas houve hemorragia, complicações, e tive que fazer mais três. Na última, foi necessário furar meu esôfago para que eu pudesse respirar. Eu estava realmente nas últimas. Nesses períodos cruciais eu sonhava desesperadamente. Estava com dispnéia pré-agônica e pagando todos os meus pecados. Mas nunca sonhei tanto. Um dos grandes sonhos foi o da minha própria morte. Eu era o morto do ano, com ampla divulgação pelos jornais, as revistas e as televisões. Sua biografia encontra-se registrada em O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, lançado em 1992. Rodrigues faleceu aos 68 anos, em 21 de dezembro de 1980. |