Intérprete da música popular brasileira, nascido Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, sua canção mais famosa foi A Volta do Boêmio. Recordista de venda de discos, teve uma carreira marcada por polêmicas. Machista e mulherengo, o cantor afirmava ainda gozar de pleno apetite sexual, conforme entrevista dada no final de 1997, para o lançamento de seu CD Ainda é Cedo. Confessou que, assim como os marinheiros, tinha uma mulher em cada porto. Mito da música popular, confusões não faltaram em sua trajetória artística. Antonio Gonçalves Sobral era filho de portugueses e, ainda criança, mudou-se para São Paulo, onde morou com a família no Brás. Apelidado pelos colegas de Carusinho, tinha sempre que ajudá-los na hora do Hino Nacional. Um dia se irritou, disse que não ia mais cantar e acabou expulso da escola. O pai ficou uma fera e aplicou no filho de apenas seis anos um castigo inusitado: levou-o a uma praça, colocou-o sobre uma caixa de sabão e obrigou-o a cantar para arrecadar dinheiro para um cego.

Nelson trabalhou como engraxate, barbeiro, mecânico, sapateiro, polidor, jornaleiro, garçom, pugilista, cafetão e conheceu o submundo da noite. Em 1938, faz um teste na Rádio São Paulo com o maestro Gabriel Migliori e é contratado com um salário de 300.000 réis. Depois, transfere-se para a Rádio Tupi e, em 1939, embarca para o  Rio de Janeiro. Faz testes na Rádio Nacional e Mayrink Veiga. Resultado: foi reprovado em ambas. Nessa época, morava numa pensão na Rua da Alfândega, pagando três mil réis por dia. A situação foi piorando e ele teve que mudar-se para as pedras do Flamengo. Reprovado em mais um teste, Ary Barroso afirma que ele não cantava nada e aconselha-o a voltar para a antiga profissão, de boxeador.

Mas Nelson não desiste. Retorna a São Paulo e consegue uma carta de uma loja de discos que se comprometia a comprar dez mil cópias se alguma gravadora se dispusesse a contratá-lo. De volta ao Rio, vai direto para a RCA Victor com um acetado gravado com duas músicas. Como ele era levemente gago, o processo se acelerou por causa das privações e da insegurança. Depois que o diretor artístico da RCA ouviu as duas músicas, quis saber se era ele mesmo o cantor. Nervoso, gaguejou sem parar e o sujeito não entendeu nada. Chamou-o de ladrão de acetato e enxotou-o porta afora. Depois de muita insistência, o diretor da gravadora tomou conhecimento do assunto e foi ouvir o acetato. Logo após, pediu que ele cantasse uma das músicas. Mal chegou à metade e o homem já gritava: Pára. Já vi muitos gagos cantarem com desembaraço. E esse é um deles, gente. Aposto que vai ser o maior cantor do Brasil. Contrata já. Começava aí a história de sua carreira. Conhece Ataulfo Alves num café e revela o desejo de gravar músicas de compositores consagrados. Desconfiado, Ataulfo mostra-lhe um samba inédito e ele canta ali mesmo. O compositor não acreditou. Nelson ganha a música, grava e é um estouro em todo o Rio de Janeiro. O ano era 1941 e o jovem cantor tinha 19 anos. Não pára de fazer sucesso, desde o início com o nome que o tornou famoso e sempre mantendo um estilo romântico.

Nelson começa realmente a ganhar dinheiro a partir de 1943 e compra uma casa na Urca, zona sul do Rio, dez terrenos em Teresópolis, na região serrana, e um carro Packard, do ano. Seu nome vira sinônimo de boemia e adquire fama de mulherengo. O auge da carreira acontece nos anos 50 e, na década seguinte, perde espaço com a invasão de novos ritmos e se entrega ao álcool. Em 1965, pára de gravar e cantar, além de separar-se de sua segunda mulher, a cantora Lurdinha Bittencourt (a primeira foi Elvira Molla). Conheceu Maria Luísa Gonçalves na porta de seu apartamento na av. Atlântica, a única coisa que sobrara de seu patrimônio. Viciado confesso em cocaína por quase dez anos, abandonou as drogas em 1966, tendo chegado a ser preso sob acusação de tráfico de entorpecentes. Não foi fácil abandonar o vício.

Com o apoio da terceira esposa, Maria Luísa, trancou-se numa casa em Pinheiros, onde recebia a comida por baixo da porta. A partir dessa época, o ostracismo marca sua carreira, mas o cantor não desiste e continua na ativa. Torna-se uma lenda, tendo gravado 103 discos em 78 rotações, 200 fitas-cassete, 22 CDs, 200 compactos duplos, 200 simples e 129 LPs, num total de 78 milhões de cópias vendidas. Foi o único, ao lado de Elvis Presley, a ganhar o Prêmio Nipper da gravadora RCA, por sua vendagem de discos. Durante a década de 90 a imprensa alardeava suas surpreendentes declarações. Dizia ter trocado o álcool pela água e abominava as apelações de Carla Perez, considerando a boquinha da garrafa uma imundície, uma depravação, uma imoralidade. Não via com bons olhos as relações homossexuais e, perguntado sobre a influência de Cazuza no comportamento dos jovens, limitou-se a admitir que admirava apenas seu talento como compositor. Nelson deixou sete filhos, sendo quatro adotados, e três netos. O cantor faleceu aos 78 anos, em 18 de abril de 1998.
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Nelson Gonçalves
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