Importante comediante natural de Uberlândia, Minas Gerais, o velho herói do cinema brasileiro, se destacou em mais de 100 filmes, dezenas de peças de teatro, revistas musicais e telenovelas, além de autor de cerca de 50 composições. Foi com Oscarito que, em 1935, conquistou as platéias do Rio de Janeiro, tendo atuado a seu lado em 13 películas. Com 1,54 m de altura, os beiços grandes e a vida pontilhada de dramas e alegrias, estava sempre onde quer que houvesse uma causa para ser abraçada. Filho de uma empregada doméstica, foi a glória dos musicais do cassino da Urca, tendo sido chamado de gênio por Orson Welles. Otelo tinha apenas oito anos quando pegou carona numa trupe teatral e seguiu para São Paulo. Em 1924, trabalhava na Companhia Negra de Revistas, com nove anos.

Grande Otelo era chamado na vida real de Sebastião Bernarde de Souza Prata e foi na companhia de teatro Jardel Jércolis que ganhou o famoso nome. O inglês era moda e, no espetáculo Goal, em São Paulo, o ator aparecia nos créditos como the Great Othelo. Um dia perguntaram a Carlos Drummond de Andrade qual brasileiro ele gostaria de ser, e ele respondeu: Grande Otelo. O ator costumava dizer: Fiquei tanto tempo sem a luz de uma vela que acabei achando alfinetes na escuridão. Ex-comunista, o ator voltou poucas vezes a Uberlândia, tendo ido meses antes de sua morte para lançar seu primeiro livro de poemas, Bom Dia, Manhã. Na infância, era chamado de Bastiãozinho, Bebê da Tia Silvana, Tião e, em 1972, era homenageado com um busto na Praça Tubal Villela. Certa vez, ele relembrou a época na terra natal, com nostalgia: 'Aqui, eu cantava, dançava, espalhava alegria e ficava alegre com isso. Eu cantava nas feiras, nas ruas movimentadas. Enfim, onde houvesse aglomeração. E ganhava um, dois tostões. Os viajantes sempre pagavam mais. Eu só não cantava na estação dos trens porque lá descolava outra jogada. Apanhava jornais velhos e vendia com desconto para minha semi-alfabetizada clientela'.

Otelo recebeu uma homenagem musical de Benito di Paula: Ei Otelo/ Ei Otelo/ Tens o dom de ser risos e perdão/ Tens no palco a vida e seu coração... És meu herói, és um rei menino/ És Macunaíma, és peregrino/ Um gigante em cena, eu quero aplaudir. Morto em Paris, ao desembarcar no aeroporto Charles De Gaulle, de onde seguiria para Nantes a convite do festival de cinema local, os jornais franceses registraram o ocorrido: O Liberación referiu-se a ele como o representante da alegria do povo de seu país e o Le Monde mencionou-o como a encarnação da alegria de viver. A cineasta francesa Ariel de Bigault afirmou: 'Ele atravessa todos os momentos importantes do cinema brasileiro. Se você o vê atuar e tira o som, sabe que não é um negro norte-americano, colombiano ou africano: ele tinha um jeito de ser brasileiro'.

Grande Otelo separou-se da atriz Josephine Helene, com quem vivia desde 1975. Em 1987, o casal foi protagonista de uma briga que chegou às manchetes policiais. No calor de uma discussão, ela lhe desferiu uma facada no abdome. O ator casou-se pela primeira vez em 1949, com a ex-empregada doméstica Lúcia Maria, que matou o filho de seis anos do casal, e depois suicidou-se. Culpava a boêmia do marido por seu ato. Otelo, nos últimos tempos, vivia de um salário modesto que recebia da Rede Globo por ser seu contratado desde 1971, e de uma aposentadoria como funcionário da Radiobrás. Seu último trabalho na televisão foi no caso especial O Besouro e a Rosa, no ar em setembro de 1993. O ator faleceu aos 78 anos, em 26 de novembro de 1993. 

Filmografia

1935: Noites Cariocas
1937: João Ninguém
1938: Futebol em Família
1939: Onde Estás, Felicidade?
1939: Pega Ladrão!
1940: Céu Azul
1940: Laranja da China
1942: Astros em Desfile
1943: Moleque Tião
1943: Samba em Berlim
1944: Tristezas Não Pagam Dívidas
1944: Berlim na Batucada
1944: Romance Proibido
1945: Não Adianta Chorar
1946: Gol da Vitória
1946: Segura Essa Mulher
1946: Este Mundo é um Pandeiro
1947: Luz dos Meus Sonhos
1948: Terra Violenta 
1948: É Com Esse que Eu Vou
1949: E o Mundo se Diverte  
1949: O Caçula do Barulho  
1949: Carnaval no Fogo  
1949: Também Somos Irmãos
1950: Aviso aos Navegantes 
1950: Não é Nada Disso
1951: Aí Vem o Barão 
1952: Barnabé, Tu És Meu  
1952:  Três Vagabundos
1953: Carnaval Atlântida 
1953: A Dupla do Barulho
1953: Amei um Bicheiro
1954: Matar ou Correr
1954: Malandros em Quarta Dimensão 
1955: Paixão nas Selvas
1955: Rio 40 Graus
1956: Depois Eu Conto
1956: De Pernas Pro Ar
1957: Rio, Zona Norte
1957: Metido a Bacana
1958: E o Bicho Não Deu
1958: É de Chuá
1958: Mulheres à Vista
1959: Garota Enxuta
1959: Os Três Cangaceiros
1959: Pistoleiro Bossa Nova
1959: Mulher de Fogo (Mujeres de Fuego)
1960: Vai que É Mole
1960: Entrei de Gaiato 
1961: Um Candango na Belacap
1961: O Homem Que Roubou a Copa do Mundo
1961: O Dono da Bola
1962: Os Cosmonautas
1962: Assalto ao Trem Pagador
1965: Uma Rosa para Todos
1965: Crônica da Cidade Amada
1968: Os Marginais
1968: Massacre no Supermercado
1969: O Álibi (L'Alibi)
1970: Se meu Dólar Falasse
1970: Os Herdeiros
1971: Cômicos e Mais Cômicos
1972: Cassy Jones o Magnífico Sedutor
1973: O Rei do Baralho   
1975: Ladrão de Bagdá, o Magnífico
1975: Deixa Amorzinho... Deixa 
1975: Assim Era a Atlântida  
1977: Ladrões de Cinema 
1980: Asa Branca - Um Sonho Brasileiro
1983: Parayba Mulher Macho
1984: Quilombo
1985: Nem Tudo é Verdade 
1987: Brasa Adormecida
1989: Jardim de Alah
1989: A Fera Carioca
1989: Os Marginais 
1989: Enfim Sós com o Outro
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A pousada na reserva florestal de Campos do Jordão
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