Cantor, compositor e pianista francês, foi o autor de mais de 400 composições e tornou-se conhecido pela potência da voz. Considerado o último chansonnier, responsável por sucessos como Et Maintenant, Nathalie, L’Impórtant C’Ést la Rose. Bécaud nasceu a 27 de outubro de 1927 e foi criado na Riviera Francesa, na cidade de Nice e estreou como profissional aos 19 anos, depois de ter estudado no Conservatório de Nice. Seu nome de batismo era François Gilbert Silly.
Quando Gilbert Bécaud se apresentou pela primeira vez na casa de espetáculos parisiense Olympia, em 5 de fevereiro de 1954, as cadeiras foram destruídas. Pela primeira vez na história do famoso teatro, não havia sido possível controlar as fãs, levadas ao delírio pelo compositor e intérprete. Junto ao imenso piano negro, Bécaud fazia, naquela noite, o show digno da fama e do apelido - Monsieur 100.000 Volt - que viriam depois. Com o indispensável cigarro na boca, o 'performer' levantava-se do piano, tirava o paletó, gritava e fazia caretas. Usando sempre o mesmo traje azul e a gravata estampada de luas, conquistava corações com romantismo e extravagância.
Alguns de seus affairs seriam famosos, como a musa Brigitte Bardot, que chegou a tentar o suicídio tomando uma elevada dose de soníferos, depois de o compositor abandoná-la para reatar com a esposa. Em canções de tom ansioso, encarnava a imagem do ‘bon vivant’, amante do luxo, das mulheres, das bebidas, dos cigarros e dos demais prazeres mundanos. Passados mais de 40 anos da data de estréia, o Senhor 100.000 Volt retornou ao mesmo palco para cantar seus antigos êxitos. Era novembro de 1997 e, aos 70 anos, o Olympia enlouquecia novamente, entre antigos e novos espectadores. Gilbert Bécaud conquistou os franceses por quase 20 anos e, algumas vezes, virou hit mundial. Mesmo assim, permaneceu pouco conhecido no Brasil.
Seus anos dourados, na década de 60, coincidiam com a chegada da Bossa Nova em território nacional. Aquilo que o movimento nacional tentava driblar - as dores dos sambas-canções das boates cariocas - , o sotaque de Bécaud embebia de romance e energia. Cantava vozes e corações desesperados, dialogando com o mundo popular. Ao mesmo tempo, produzia preciosidades ("Les Cloches", "La Rivière", "Toi" e "Et Le Spetacle Continue", entre outras) mais difíceis de se ouvir. Todo o novo intimismo e o sussurro do recém-nascido estilo brasileiro encontravam no compositor francês sua literal antítese. O jornalista e compositor Nelson Motta chegou a escrever, em ocasião da visita do cantor ao país, que aterrissava aqui um dos maiores representantes da "cafonália".
Enquanto João Gilberto falava baixinho e se escondia atrás de seu violão, Bécaud se empolgava tanto que às vezes destruía o piano com suas performances. O trabalho era para ele, segundo suas próprias palavras, “algo visceral”, que saía de suas entranhas.
Se a beleza da bossa carioca encantava a juventude brasileira, Bécaud renovava a canção popular francesa - junto de Georges Brassens, Charles Trenet, este falecido em fevereiro de 2000, e Charles Aznavour, o único ainda vivo - e marcava o pós-guerra de seu país. Conquistava mais o público pela dramaticidade e pela facilidade do diálogo entre o público e a sua música. Levava aos palcos de seus shows ao piano a teatralidade das grandes óperas. Destas, as quais sempre sonhou compor e interpretar, produziu apenas uma: “L'Ópera d'Aran”, encenada em Paris com grande sucesso, em 1962, depois levada para outros cantos da Europa.
Seu som e sua voz vibraram nas 'chansons', diversas trilhas de filmes e peças durante muitos anos, até começar a ser tragada pelos novos ritmos, em meados dos anos 70, e ir aos poucos desaparecendo. Gravou um último disco, “Mon Cao”, em 1999, que foi bem recebido pela crítica francesa, mas passou incólume em âmbito internacional. Gilbert Bécaud faleceu aos 74 anos, em 18 de dezembro de 2002. |