Cantora paulista com um timbre de voz macio, exageradamente agudo e sem muitos recursos, obteve a consagração do público com interpretações pungentes, destacando-se a célebre Ave Maria no Morro, de Herivelto Martins, gravada em 1942. Caracterizou-se também pela pronúncia exagerada de erres e as canções cafonas de dor e amor. Por outro lado, na opinião de muitos, tinha previlegiadíssima voz, tendo sido considerada por Villa-Lobos a melhor cantora do Brasil. Cognominada a Rainha da Voz, Dalva era filha de portuguesa e mulato e um dos primeiros exemplos da moça do interior que o rádio projetava na cidade grande. Sua trajetória foi atribulada, vivendo em orfanatos, sendo costureira e faxineira para sobreviver, e cantando em circos.
Dalva perdeu o pai aos 10 anos e a mãe, Alice de Oliveira, preocupada com as filhas menores, deixou-a num orfanato para estudar. Saiu de lá aos 15 anos para cuidar da casa. Empregou-se como auxiliar de escritório e estudava nas horas vagas. Mas ficou doente dos olhos. Durante dois anos não via coisa alguma sem o auxílio de óculos. Aos 17 anos, inscreveu-se num curso de canto de madame Zenaide Roque, em São Paulo. Um dia, o empresário Antonio Zovetti ouviu-a numa aula e se dispôs a contratá-la. Como fosse menor, empregou também sua mãe, como comediante da companhia.
Em 1934, ela e a mãe deixaram São Paulo para excursionar em Minas Gerais e Rio de Janeiro. Quando o grupo chegou em Belo Horizonte, Alice adoeceu e teve que ser internada num hospital. Depois, com saudades das outras filhas, resolveu voltar para São Paulo. Como Zovetti não a quisesse sozinha, com medo de complicações com o juizado de menores, Dalva então abandonou a troupe e obteve um contrato com a Rádio Mineira. Sua ambição não permitiu-lhe ficar muito tempo por lá, transferindo-se para o Rio de Janeiro, a capital do país na época. Para sobreviver, Dalva foi trabalhar numa fábrica de chinelos na antiga rua Gonçalves Ledo. Um dia apareceu por lá Milonguita, famoso cantor de tangos na ocasião e que também era diretor artístico da Rádio Ipanema. Ouviu Dalva cantando enquanto trabalhava e pediu permissão ao dono para ir vê-la. Imediatamente convidou-a para fazer um teste em sua emissora. Dalva foi, bastante acanhada, pois os estúdios eram naquele tempo no Cassino Atlântico, e ela não tinha um vestido apropriado para o local.
Dalva foi aprovada e incorporada ao elenco da Ipanema, passando a receber um vale de Cr$ 15,00 por programa e cantava uma vez por semana. Milonguita também a levou para a Rádio Sociedade, onde também cantou com vale de Cr$ 20,00. Enquanto isso, ainda trabalhava na fábrica de chinelos, mas, ao ser convidada para cantar também na Rádio Philips, abandonou o emprego. Pouco depois, em princípios de 1936, era chamada pela Rádio Mayrink Veiga, onde assinou seu primeiro contrato. Edmar Machado gostou de sua voz e arranjou-lhe um professor de canto, o maestro Gambardela. Estudou durante quatro meses e depois ingressou na Companhia Teatral de Vicente Celestino. Finalmente, Duque a levou para a Casa de Caboclo e deu-lhe o papel principal da peça que ia iniciar. Ainda neste mesmo ano e na Casa de Caboclo, conheceu a dupla Preto e Branco, que se transformou em Trio de Ouro com sua inclusão.
A cantora permaneceu com o trio de 1936 a 1949, ao lado de Nilo Chagas e Herivelto Martins, com quem veio a se casar posteriormente. Separaram-se no início dos anos 50, um escândalo para a época, ocasião em que seu drama íntimo era revelado nas canções, de grande eloquência interpretativa. Em 1951, Dalva era escolhida a Rainha do Rádio, destronando Marlene e ganhando como prêmio um automóvel Golliath, oferecido pela Auto-Modelo. Firmava-se como a versão feminina do Rei da Voz, Francisco Alves, e reinou absoluta num cenário repleto de cantoras dos anos 50. Casou-se novamente, em Paris, com o humorista portenho Tito Climenti, em 1952. Seu nome de batismo era Vicentina de Paula Oliveira, tendo feito carreira também no exterior. Kalu, de Humberto Teixeira e gravado em Londres em 1952, foi um de seus retumbantes sucessos, obrigando a gravadora Odeon a paralisar toda sua produção apenas para imprimir os milhares de discos disputados pelo público.
Seu último grande êxito, Bandeira Branca, foi uma marcha-rancho carnavalesca gravada para o ano de 1969. Lançou outros memoráveis sucessos musicais, como Brasil (com Francisco Alves, 1939), Dois Corações (também com Francisco Alves, 1942), Pescaria (de Dorival Caymmi, 1944), Segredo (de Herivelto Martins, 1947), Que Será? (1950), Tudo Acabado (1950), Olhos Verdes (1950), Errei Sim (de Ataulfo Alves, 1950), Zum-Zum (de Fernando Lobo e Paulo Soledade, 1950), Calúnia (1951), Palhaço (1951), Estrela do Mar (1951), Folha Morta (de Ary Barroso, 1953), Ai Yoyô (Linda Flor) (1953), Lencinho Querido (1956), Há um Deus (de Lupicinio Rodrigues, 1957), Tu (de Ary Barroso, 1961), Mãe Maria (1961), A Bahia Te Espera (1963), Bom-Dia (1967) e Cabelos Brancos (1969). Ao todo, são mais de 400 gravações catalogadas até seu falecimento. Em fins da década de 60, chegou a gravar Chico Buarque e Roberto Carlos, tendo manifestado publicamente sua simpatia por Maria Bethania.
A canção Babalú, símbolo da carreira musical de Angela Maria, foi interpretada muito antes por Dalva, de quem Angela copiou o laririri. Foi a época em que a notável cantora virava assunto das fofocas na imprensa devido a excessos alcóolicos e romances com rapazes jovens. Chegou a ter uma participação musical no filme Tudo Azul. Em decorrência de um acidente automobilístico ocorrido em 1965, Dalva padecia de fortes hemorragias internas, tendo sido a última, fatal, sete anos depois, agravada por um câncer no baço. Nos anos 80, Marilia Pêra protagonizou A Estrela Dalva, montagem teatral sobre a vida e a carreira da cantora. Dalva de Oliveira faleceu aos 55 anos, em 30 de junho de 1972. |